Mostra de fotografia “Na Pele Dela” até dia 22

Inaugurada no passado dia 12, continua patente em Lisboa até ao próximo dia 22, no espaço Todos Playground, em Marvila, a exposição “Na Pele Dela”, que coloca várias figuras públicas do sexo masculino a desempenharem funções que, normalmente, são atribuídas à mulher, num projeto que reúne um conjunto de imagens eque nasceu da programadora Marie Lopes e do fotógrafo Mário César.

Cantores como Carlão, Tomás Wallenstein (da banda Capitão Fausto) e Paulo Furtado (Legendary Tigerman), bem como o artista plástico Julião Sarmento ou o ator Albano Jerônimo são alguns dos convidados que aceitaram participar neste evento, cujas receitas das vendas revertem a favor da ILGA Portugal, a maior e mais antiga associação que luta pela igualdade e contra a discriminação das pessoas lésbicas, gays, bissexuais, trans e intersexo (LGBTI) em Portugal.

Como defendeu a escritora francesa Simone de Beauvoir, na obra “O Segundo Sexo”, em 1949, “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Para a ativista política, feminista e teórica social, “nenhum destino biológico, psíquico, económico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificamos de feminino”, defendeu, tendo lembrado que apenas a “mediação de outrem pode constituir um indivíduo como outro.”
É a partir deste conceito e da ideia de que “só existem duas identidades, masculina e feminina, variando ao longo dos séculos e culturas o papel que cada uma destas identidades desempenhava”, que surge o projeto agora em exposição na capital.



Na cultura judaico-cristã, a mulher primordial foi criada como auxiliar do homem, a partir da sua costela e para o complementar. “Ser alegadamente incompleto e por definição inferior, foi-lhe associado o conceito de ´segundo sexo’, criando em seu redor uma aura de fragilidade e impotência, de inocência paralisante”, afirmam os promotores do projeto. “Esta evidente dicotomia na percepção e tratamento de homens e mulheres (e a obsessão inconsciente de que só se é homem ou mulher), é causa e consequência da desigualdade que ninguém se atreveu a questionar durante séculos e que, infelizmente, dura até hoje”, acrescentam.

Com efeito, a desigualdade de género “teve, e continua porém a ter, um impacto muito mais perverso e invisibilizador das pessoas que se identificam como mulheres (e todo o espetro infinito do que é sentir-se mulher), daí que seja o foco desta exposição”, explicam. “Os resquícios desta coletiva aceitação são ainda dolorosamente evidentes”, sobretudo, quando “confrontados/as com a prova de uma igual capacidade para desempenhar tarefas, ainda nos é natural seguir pelo caminho da distinção e hierarquia: um homem não é cozinheiro, é chef; um homem não é costureiro, é alfaiate; um homem não é criado, é mordomo”, recordam.



“Porque o acesso a informação vinda das mais diversas fontes veio confrontar esta geral adesão a conceitos arcaicos, mas também porque vivemos numa sociedade que vê o progresso com suspeita, queremos com este projeto contribuir para o imaginário visual das pessoas espetadoras, criando um quadro de referências ao qual poderá aceder por sua livre vontade”, refere a organização da mostra, que pretende com estas fotografias “normalizar o que sempre o deveria ter sido e convidar a audiência a ponderar nestas representações e na necessidade de as expôr em espaço público”.
A exposição, um conceito original com direcção de Marie Lopes e fotografia de Mário César Photo, conta com a pós-produção de Axelle Manfrini e narrativa por Mariana Meireles. A identidade gráfica esteve a cargo da Solid Dogma e o vídeo de Leonor Bettencourt Loureiro e Neura Media. Fotos: Marie Lopes e Mário César

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